O Perigo de Ir à Igreja e Estar Longe de Deus

Foi um ótimo sábado na Casa de Deus, aqui no bairro Santa Maria. Cheguei como em qualquer outro culto, mas saí diferente. O tema da manhã, o próprio Milton admitiu, era um pouco intrigante, e, mais do que isso, foi uma mensagem que ele mesmo disse que não gostaria de pregar. Mas era o que Deus havia colocado na mente dele, e o Espírito exigiu que fosse pregado. Compartilho aqui o que ouvi.
Deus não executa juízos sem antes avisar
Milton começou nos lembrando de um princípio que percorre toda a Bíblia: Deus não executa juízos sem antes dar avisos. E esses avisos não são castigo, são oportunidade de arrependimento. Deus envia, por meio dos seus mensageiros, advertências que muitas vezes são para a nossa salvação eterna.
Ele citou Amós 3:7: "certamente o Senhor não fará coisa alguma, sem primeiro revelar o seu segredo ao seu servo, os profetas."
E deu exemplos concretos:
- Noé advertiu o mundo antes do dilúvio.
- Jonas anunciou o juízo sobre Nínive.
- Jeremias advertiu Judá antes da destruição de Jerusalém.
Foi nesse ponto que ele anunciou o tema, com aquelas palavras que ficaram ecoando na minha cabeça:
O perigo de vir à igreja e ainda assim estar longe de Deus.
"Palavras fortes, mensagem dura", ele disse, "mas não de ódio."
O que estava acontecendo em Judá
Abrimos Jeremias 7. Deus manda o profeta se colocar à porta da casa do Senhor e proclamar a palavra a todos que entravam por aquelas portas para adorar. Repare na cena: o povo estava ali, na entrada do templo, gente religiosa, gente que frequentava a casa de Deus.
E Milton fez questão de pontuar: aquele povo fazia as coisas certas. Participava do culto, oferecia sacrifícios, participava das cerimônias religiosas, da ceia, devolvia o dízimo. Nada disso era errado.
O problema era que, ao mesmo tempo, eles viviam em desobediência a Deus. E Deus aponta exatamente onde:
- Verso 6, eles oprimiam o estrangeiro, o órfão e a viúva, e ainda derramavam sangue inocente.
- Verso 9, furtavam, matavam, cometiam adultério, juravam falsamente, queimavam incenso a Baal e andavam após outros deuses que não conheciam.
- Verso 18, os filhos apanhavam lenha, os pais acendiam o fogo e as mulheres amassavam a farinha para fazer bolos. Bolos oferecidos à rainha dos céus, com libações a outros deuses.
Era esse o retrato: gente na porta do templo, com a aparência toda certa, e a vida toda errada.
Milton fez questão de tornar aquilo pessoal. A palavra do Senhor não foi dita só "ao povo de Judá", foi dita ao Milto, ao João, à Maria, à Débora. Foi dita a você. Foi dita a mim. E me dei conta de que o povo de Deus estava na igreja exatamente como nós estávamos ali naquela manhã.
"Emendar" não é remendar
No verso 3, Deus dá o recado: "emendar os vossos caminhos e as vossas obras."
E aqui veio uma imagem que me marcou. Essa "emenda", explicou Milton, não é um remendo. Quando se fala em emenda parlamentar, muitas vezes é justamente isso: um remendo, uma tentativa de amarrar alguma coisa por cima. Não é disso que Deus está falando. Deus está pedindo mudança de vida, mudança nas ações.
E havia uma contrapartida (verso 7): se o povo obedecesse, Deus os faria habitar naquele lugar, a Canã terrestre. Hoje, disse ele, nós não esperamos mais morar na Canã terrestre. Nós esperamos, pela graça de Deus, morar na Canã celeste. Os desafios e obstáculos, porém, continuam os mesmos.
Cuidado com as palavras falsas
O verso 8 diz que eles confiavam em palavras falsas. E Milton fez uma observação afiada: as palavras falsas vêm robustecidas, revestidas de coisas boas.
Uma das palavras falsas dos nossos dias é dizer apenas que Deus é bom. E é verdade, Deus é bom, é misericordioso, é amor. Mas existe outra verdade que a gente não gosta muito e que muitas vezes não é pregada: Deus também é justiça. Deus é justo. Essa parte a gente costuma omitir.
A história da igreja em Porto Alegre
Para ilustrar como o nome de Deus pode ser usado para outras finalidades, Milton contou uma história que um amigo havia lhe contado.
Um líder religioso, que cuidava de uma igreja na nossa região, foi convidado a cuidar de uma igreja em um dos bairros perigosos de Porto Alegre, desses lugares onde a violência impera e onde já se sabe quem dá as ordens: o crime organizado.
Prepararam para ele uma espécie de recepção, uma festa com churrasco, bebidas, orgias. E disseram: "Nós precisamos de uma igreja aqui neste lugar." A intenção era evitar o acesso da polícia, ter "menos problemas". Ofereceram tudo: alugar o espaço, comprar os bancos, instalar os equipamentos de som, doar todo o material necessário.
Queriam apenas uma coisa em troca: o CNPJ da igreja.
O recado ficou claro. Muitas vezes se usa o nome de Deus, se usa uma igreja, com intenções nada boas. O que aconteceu no passado, infelizmente, pode acontecer hoje.
Adultério não é só o físico
Ainda sobre as palavras falsas e as práticas que Deus reprova, Milton expandiu o conceito de adultério. Adulterar não é apenas algo físico.
Você vai abastecer o carro e percebe que ele começa a falhar, perde potência, você sabe que a gasolina foi adulterada. Às vezes até o leite, o alimento, está adulterado. Deus se preocupa com isso. Deus não aprova isso.
Não basta a aparência religiosa
Aqui Milton nos deu um respiro, mas sem soltar a mão. "Que bom que você está aqui na igreja. Que bom que você está assistindo lá da sua casa. Nós agradecemos, mas não se conforme apenas com isso."
Ele lembrou que é bíblico não deixarmos de congregar, como é costume de alguns, e tanto mais quanto vemos que o dia se aproxima. Congregar é essencial. Mas a comunhão com Deus precisa continuar todos os dias.
Não basta viver da aparência religiosa, de ser a pessoa que está em todos os cultos, isso é bom, nada disso é errado. Mas você precisa estar alimentado da palavra de Deus todos os dias, na sua casa. Não só no templo, mas onde quer que você esteja. Precisamos estar conectados com Deus.
Quando Deus mandou parar de orar pelo povo
A situação em Judá era tão grave que Deus chegou a dizer ao profeta algo impressionante (verso 16):
Tu, pois, não intercedas por este povo, nem levantes por eles clamor.
Deus foi duro com o profeta. Mas, como Milton sublinhou, a culpa não era do profeta, a culpa era do povo. E nós somos o povo de Judá hoje, agora.
Ainda assim, ele nos lembrou de uma verdade que muda tudo: na Bíblia, os juízos de Deus não têm o propósito de apenas condenar. Têm o propósito de despertar para o arrependimento e levar a uma mudança de vida. Ele repetiu isso, devagar, para que ninguém saísse sem entender.
A mensagem é, primeiro, para mim
Esse foi o ponto em que a pregação virou espelho. Milton foi claro: essa reflexão não tem como objetivo primeiro apontar o erro dos outros. Ao contrário, o primeiro passo é eu e você examinarmos a nós mesmos.
Ele lembrou de Jesus diante da mulher: "aquele que não tem pecado atire a primeira pedra", e, um por um, começaram a se retirar, a começar pelos mais velhos. Quando ouvimos algo forte, duro, é para pensarmos primeiro em nós. Não é "ah, se o João estivesse aqui, ah, se a dona Maria ouvisse isso hoje". Não. Essa mensagem, primeiro, é para mim.
E deixou perguntas para a gente levar para casa (sem levantar a mão, só para refletir):
- Como está o meu relacionamento com Deus?
- Estou vivendo de acordo com aquilo que sei ser correto?
- Se Deus examinasse o meu coração agora, o que Ele encontraria?
- Vou aceitar os avisos e correções que Deus me dá?
Deus repreende a quem ama
Para fechar, fomos ao último livro da Bíblia: Apocalipse 3, versos 19 a 21.
Eu repreendo e disciplino a quantos amo.
Milton foi honesto: ninguém gosta de ser repreendido. Ele mesmo nunca ficou feliz e nunca agradeceu quando foi corrigido, no máximo segurou a expressão. E por que não gostamos? Porque mexe com o nosso eu, com o nosso ego, com o nosso orgulho. Mas, se nesta manhã estávamos sendo repreendidos, é justamente porque Deus nos ama.
E logo em seguida vem o apelo mais bonito de toda a mensagem:
Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e com ele cearei.
Deus está à porta do nosso coração, batendo. Mas, além de ouvirmos a Sua voz, precisamos dar o passo seguinte: abrir a porta. Aí então Ele promete entrar e fazer uma refeição conosco. E ao vencedor, aquele que aceita Jesus como Salvador, Ele dá o direito de se assentar com Ele no Seu trono, assim como Ele venceu e se assentou com o Pai.
Quem tem ouvidos, ouça
O apelo final ecoou aquele chamado: "Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas." Todos nós temos a capacidade de ouvir. Então, que a gente ouça. Que a gente aceite ser repreendido por Deus, porque todos temos coisas a rever, atitudes e ações a refletir, práticas que sabemos, pela palavra de Deus, que não estão corretas.
A Bíblia é uma carta de amor. "Lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho." Deus nos deixou a luz; não estamos na escuridão. Por isso somos responsáveis.
E aqui Milton trouxe uma última imagem, sobre o perigo da omissão. Imagine alguém dizendo: "não quero a luz, não vou mais estudar a Bíblia, porque assim não terei que responder no juízo." Você pensa que ficaria livre? Não. Isso se chama omissão. É como passar por alguém caído na rua, que teve um mal súbito, foi assaltado, foi agredido, e seguir fingindo que não viu. Se for flagrado por uma câmera ou denunciado, você responde pelo crime de omissão. Quanto mais diante de Deus, que conhece o fim antes do princípio.
Por isso, o apelo: não sejamos rebeldes, não sejamos teimosos. "Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração."
Saí do culto entendendo que não basta atravessar a porta da igreja. O que Deus quer é atravessar a porta do meu coração. E essa porta, só eu posso abrir.
"Querido Pai, ainda que tenhamos pecados, sejamos rebeldes, teimosos, pedimos a tua graça transformadora sobre os nossos pensamentos, sobre as nossas ações, sobre os nossos corações. Nos transforma, meu Pai. Em nome de Jesus, amém."