Nem tudo o que reluz é ouro

Cheguei no culto sem saber direito o que esperar, e saí com uma frase martelando na cabeça: aparência é vaidade, essência é realidade. A pregadora começou de um jeito desarmante, confessando que ser convidada para esplanar a palavra é uma responsabilidade enorme e que ela nunca se sente capaz. "É do coração que eu digo", falou, e contou que entrega tudo nas mãos de Deus: "Senhor, a palavra é tua. Eu não sou digna, mas te ponho como responsável pelo que vou falar."
Ela ainda brincou que tinha preparado uma palestra inteira, sobre "a máquina de fazer pecado que cada um de nós tem no corpo", e que, na hora de revisar, simplesmente não achou o esboço. Procurou, procurou, e nada. Aí orou: "Pai, tu não queres que eu fale sobre isso? Agora me orienta." E foi dessa perda que nasceu o tema do dia.
A caneta de ouro do vereador
A primeira história já me pegou. Ela trabalhou 35 anos na Câmara Municipal de Belém, como assistente da presidência, tinha que conhecer o regimento interno e as leis de cor, porque sentava ao lado do presidente e, quando faltava uma palavra, ela ditava de longe. (Disse que até hoje, às vezes, o pregador está na frente e ela completa a frase lá do banco.)
Um vereador, ainda jovem, vivia pedindo encomendas dos Estados Unidos. Um dia pediu uma caneta Mont Blanc de ouro. Curiosa, ela perguntou por que uma caneta já tão cara precisava ainda ser de ouro. A resposta foi reveladora:
"Minha família tem muito dinheiro, muitas terras aqui no Pará, mas eu não tenho nada, só tenho um nome. Quando preciso de dinheiro e vou ao banco, eu saco do meu Rolex, abro o paletó, tiro minha caneta Mont Blanc de ouro para assinar, e nenhum gerente me nega um empréstimo."
Pura aparência. Daí ela emendou as duas frases que todo mundo conhece: "nem tudo o que reluz é ouro" e "a primeira impressão é a que fica". E concluiu que vivemos entre duas instâncias que estão dentro de cada um de nós: aparência e essência.
Ver é diferente de enxergar
A definição que ela deu ficou comigo. Aparência é a figuração exterior, a vaidade, o jeito de vestir, de andar, de conversar; é o que a sociedade exige e o que as redes sociais cobram tanto que a gente tira uma foto, edita, transforma, fica lindo e posta. Aparência é ver, e ver é visível.
Essência é a configuração do interior: nossos valores, nosso caráter, nossa consciência, invisível, e que pouca gente percebe. Essência é enxergar. E ela explicou a diferença com um exemplo simples: eu vejo você e acabou; mas quando eu enxergo, eu reparo no detalhezinho do seu sapato. Enxergar é minucioso. A essência é quem nós somos de verdade.
A figueira que só tinha folhas
Depois de orar, ela nos mandou abrir em Marcos 11:12-14. Jesus, com fome, vê de longe uma figueira cheia de folhas. Chega perto e... só folhas. Nenhum fruto. E amaldiçoa a árvore.
A figueira, ela disse, representava o povo judeu, escolhido por Deus, com toda a aparência de santidade, mas sem o fruto da misericórdia, do amor, da humildade. E lembrou que Jesus não aboliu os mandamentos: resumiu tudo em amor a Deus e amor ao próximo. "É impossível agradar a Deus sem amor ao próximo." Atos de bondade são a marca do verdadeiro cristão; quem não vive isso é cristão de aparência.
Foi aqui que ela apontou para o nosso dia a dia: corremos atrás de carro novo, casa nova, três pares de sapato, mais dinheiro, mais dinheiro, e para mostrar para quem? Não para Deus. Para o próximo. Para parecer. "Hipócritas", ela repetiu, lembrando que dá pra estar na casa de Deus vivendo para os homens.
"Amo a Cristo, mas odeio os cristãos"
A essa altura ela trouxe Gandhi, nascido em 1869, falecido em 1948, um nome na história universal, e a frase dura dele: "Eu amo a Cristo, mas odeio os cristãos, porque os cristãos não vivem o que pregam." Ela mesma chamou isso de um massacre para todos nós.
E completou com uma definição de felicidade que anotei: felicidade é quando o que você pensa, o que você diz e o que você faz estão em harmonia. Quando carregamos o nome de cristão sem viver como Jesus viveu, falta justamente essa harmonia.
O que Deus olha
Ela foi ao Antigo Testamento, em 1 Samuel 16:7. Samuel vê o rapaz de boa aparência e pensa: com certeza é este o ungido. Mas o Senhor responde: "Não atentes para a aparência nem para a altura... o homem vê o exterior, porém o Senhor vê o coração."
E foi mais atrás ainda, ao Éden (Gênesis 3:6): Eva viu que a árvore era boa para comer e agradável aos olhos. "Tudo aparência", ela disse, talvez a primeira vez que a aparência foi levada em consideração, e o resultado nós conhecemos. Para Deus, o que vale é um espírito dócil, amoroso, tranquilo. E em João 7:24: "Não julgueis segundo a aparência."
Os sepulcros caiados
A parte mais forte foi Mateus 23, onde, ela fez questão de contar, Jesus repete oito vezes a palavra "hipócritas". Escribas e fariseus que dizem e não fazem, que fazem longas orações para serem vistos, que limpam o exterior do copo enquanto por dentro estão cheios de imundície.
E a imagem dos sepulcros caiados: por fora belos, por dentro cheios de ossos de mortos. Ela contou que tinha estado num cemitério naquela semana, daqueles com catacumbas tão lindas que a gente quase diz "quando eu morrer quero ser enterrado numa dessas", e mandou olhar bem o que tem por dentro do sepulcro. Lembrou até do ditado dos avós: "por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento." E avisou que, logo depois daquele capítulo, vem o versículo 33: "serpentes, raça de víboras, como escapareis da condenação do inferno?"
A essência vem de Jesus
Mas ela não nos deixou só com a dureza. Lembrou que Jesus teve palavras doces, amáveis e santas para quem tinha essência: chamou de "filha" a mulher do fluxo de sangue, desesperada só para tocar na barra da Sua roupa. E, pregado na cruz, com cãibras e sem fôlego, ainda teve calma e amor para dizer ao ladrão arrependido: "hoje eu te digo, estarás comigo no paraíso."
A conclusão foi um chamado claro: a responsabilidade de ser cristão pesa demais, então não seja um cristão de aparência, seja um cristão de essência. E essa essência vem de Jesus. Quando aceitamos a Cristo e descemos às águas do batismo, o passado fica para trás e adquirimos a essência do Senhor; e a partir dali cabe a nós, cada dia, cada hora, pedir: "Senhor, cuida deste meu eu, porque agora sou uma nova pessoa."
Saí do culto com a lista de cuidados que ela repetiu no fim: cuidado com nossas palavras, com nosso louvor, com nossas orações, com as piadas que a gente fala lá fora, com o que somos aqui dentro e o que somos lá fora, para os vizinhos, os colegas, as pessoas que cruzam a rua. O justo juiz é Deus, não somos nós. Que a gente seja humano, seja essência, e tenha sempre Jesus no coração, porque, como diz Provérbios 14:12, "há caminho que ao homem parece direito, mas ao cabo leva à morte."
Resumo pessoal da pregação deste sábado. As histórias, exemplos e textos bíblicos são da própria pregadora; qualquer falha na transcrição é minha.