É Difícil Ser Cristão Quando Eu Tenho Razão

Bom sábado. Foi mais um culto especial hoje, e o pregador começou já avisando que a mensagem de hoje era, antes de tudo, para ele mesmo. Ele disse que sempre prega algo que primeiro falou ao seu próprio coração, não algo pensado só para os outros, e que essa experiência específica tinha vindo de um aspecto da parábola do filho pródigo que, segundo ele, quase nunca é explorado quando se prega sobre esse texto.
Antes de abrirmos a Bíblia, ele fez uma daquelas pausas bem-humoradas de sempre, comentou que está ficando velho e precisa tirar os óculos para ler, mas às vezes também precisa deles para enxergar a plateia, e ainda não entendeu direito o motivo. Todo mundo riu, oramos juntos, e fomos para Lucas 15, a partir do versículo 11.
O contexto que a gente costuma pular
Antes de entrar na parábola em si, o pregador fez questão de mostrar todo o caminho que Lucas percorre até chegar ali, porque, segundo ele, Lucas é o evangelho mais cuidadoso com a cronologia dos fatos, e isso importa para entendermos para quem Jesus estava falando.
Ele voltou até Lucas 11, onde Jesus fala do sinal de Jonas e do arrependimento dos ninivitas, falando diretamente para os mestres da lei e os fariseus. Dali em diante, capítulo após capítulo, Jesus vai desmontando a mentalidade religiosa da época: a preocupação com a aparência exterior em vez do que Deus vê por dentro (capítulo 11), o alerta sobre o "fermento" da doutrina farisaica e a pergunta sobre onde está o nosso tesouro (capítulo 12), a mulher curada num sábado e a reação de quem só queria ver se Jesus ia "errar" a regra em vez de comemorar o milagre (capítulo 13), e por fim, no capítulo 14, o preço do discipulado, "qualquer de vocês que não renunciar a tudo que possui, não pode ser meu discípulo."
Ou seja: quando chegamos às três parábolas do capítulo 15, a ovelha perdida, a moeda perdida e o filho pródigo, Jesus já vinha, por vários capítulos, tentando quebrar uma mentalidade muito específica. E as três parábolas têm o mesmo centro: Deus faz de tudo para salvar quem está perdido.
A parábola, do jeito que ele leu
O pregador leu o texto direto da sua Bíblia (versão NVI): o filho mais novo pede a herança ao pai ainda vivo, vai para uma terra distante, gasta tudo vivendo de forma irresponsável, e quando vem a fome ele se vê cuidando de porcos, desejando comer o que os porcos comiam. Só aí, disse o pregador, "caiu a ficha", ele se lembra que na casa do pai até os empregados tinham comida de sobra, e decide voltar, preparando o discurso: "pai, pequei contra o céu e contra ti, não sou mais digno de ser chamado teu filho."
E o pai o recebe ainda de longe, correndo, abraçando, sem nenhum ressentimento, manda vestir a melhor roupa, colocar um anel no dedo, matar o novilho gordo e fazer a festa, "porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi achado."
Até aqui, disse o pregador, é a parte que a gente sempre prega: o amor do pai, o resgate. Mas ele quis nos levar para outro lugar.
O filho mais velho, e a pergunta incômoda
A partir do versículo 25 entra o filho mais velho, que ao voltar do campo ouve a festa, pergunta o que está acontecendo, descobre que o irmão voltou e fica com raiva, recusando-se a entrar. Ele reclama com o pai: anos trabalhando como escravo, nunca desobedecendo, e nunca ganhou nem um cabrito para festejar com os amigos, mas agora o irmão que "esbanjou os bens com prostitutas" ganha o novilho gordo.
Aqui o pregador parou e perguntou para todos nós, olhando de verdade para as famílias na igreja: "Pensem se fosse na família de vocês, ou na minha. O filho mais velho tinha ou não tinha razão?" E ele mesmo respondeu: tinha. Para qualquer pessoa com senso de justiça, o filho mais velho estava certo. "Eu não estou dizendo que ele não tinha razão", ele repetiu. "O problema não era ele ter razão."
E foi aí que ele chegou no ponto central da pregação:
É fácil ser cristão quando eu não tenho razão, quando reconheço que errei, que pequei, e volto para o pai. Mas ser cristão quando eu tenho razão, aí é que é difícil.
Segundo ele, era exatamente isso que Jesus estava tentando dizer aos mestres da lei e fariseus: eles precisavam aprender a ser crentes justamente quando estavam certos, sem olhar para quem estava entrando no reino de Deus como se fossem "menos", mas como irmãos sendo acolhidos. E ele fez notar um detalhe: nenhum servo da parábola questiona nada, todos simplesmente fazem o que o pai manda. O problema estava só no filho que tinha razão e não sabia o que fazer com isso.
Duas histórias, a mesma semana e alguns anos atrás
Foi aqui que o pregador decidiu se expor de um jeito que, segundo ele mesmo, não é fácil.
A primeira história era desta mesma semana. Ele contou que exerceu "justiça" numa situação em que não precisava ter feito isso, e que, se contasse os detalhes para qualquer um de nós, provavelmente todos concordaríamos que ele tinha razão em agir daquele jeito duro. Mas ele mesmo se corrigiu: "pouco importa quem tem razão, porque quem tem razão é Deus, é o pai." Ele falou sobre como certos ambientes vão nos "intoxicando" aos poucos, nos fazendo perder de vista que estamos sempre na companhia do pai, e como, naquela situação específica, ele deixou essa toxina falar mais alto do que Cristo. "É muito difícil ser cristão quando eu tenho razão", repetiu, agora falando de si mesmo.
A segunda história foi de algumas semanas atrás, quando ele estava indo pregar em Greginha. No caminho, ele sentiu, não uma voz audível, mas aquela impressão forte, que devia ir até a casa de uma pessoa específica e falar com ela. Sua primeira reação foi resistir: "não posso, estou atrasado, saio do Iaxe e ainda tenho que chegar na igreja central, não dá tempo." Mas ao parar em frente a um mercado (o Macromix), a impressão voltou: "vai na casa do fulano."
E aqui o detalhe que dava peso à história: essa pessoa tinha sido muito, muito injusta com ele, algo absurdo, que tinha criado problemas sérios. Ainda assim, ele foi. Bateu na campainha e ninguém atendeu, daqueles 30 segundos que parecem durar duas horas. Bateu de novo, e na segunda vez a pessoa saiu. Ela disse: "semana passada eu queria ter falado contigo." Ele respondeu que não podia entrar, estava atrasado para a igreja, mas precisava dizer uma coisa: que ela estava perdoada, mesmo tendo feito o que fez, e que estava tudo certo.
A pessoa, bem mais velha que ele, começou a chorar ali na frente. Ele a abraçou e disse que estava tudo certo, que em outro momento voltariam a conversar.
"Isso é o que nós deveríamos fazer todos os dias", ele disse, "não o que eu fiz nesta semana." E completou algo que me marcou: essa reconciliação levou dois anos para acontecer. Durante dois anos ele foi o filho mais velho naquela relação, até que um dia "caiu a ficha".
O antídoto que ele pede todos os dias
Ele fechou dizendo que só recentemente recebeu uma ligação de alguém a quem tem muita consideração, agradecendo por aquele gesto na porta, e que isso é, nas palavras dele, "testemunhar do pai". Mas fez questão de deixar claro que não é fácil, ainda mais no ambiente difícil em que ele diz estar vivendo hoje. Por isso ele tem pedido a Deus, todos os dias, para colocar esse "antídoto na veia", para não deixar que a toxina do ressentimento tome conta.
E voltou ao texto que já tinha lido antes de entrar na parábola: Lucas 14:32-33, sobre a renúncia própria, que ele definiu como "tirar quem tem razão de cena". Foi esse o convite final: viver na prática o que o pai disse ao filho mais velho, "meu filho, você está sempre comigo e tudo o que tenho é seu", um cristianismo que vai além da razão, que carrega a graça de Deus no coração e a leva para outras pessoas.
Encerramos em oração, pedindo para que Deus mostre o que precisa ser transformado em nós e nos ajude a renunciar ao que precisa ser renunciado, para sermos testemunhas Dele por onde quer que andemos.