A Transformação de Gideão

Neste sábado o pastor Thiago trouxe uma história de mais de 3 mil anos que continua absurdamente atual. Ele abriu no livro de Juízes, capítulo 6, e nos conduziu pela trajetória de um dos personagens mais improváveis da Bíblia: Gideão, um homem que saiu de um buraco, literalmente, e terminou sendo reconhecido pelo próprio inimigo como alguém que parecia filho de rei.
O ciclo que nunca muda
Antes de chegar em Gideão, o pastor contextualizou o livro de Juízes. Ele explicou que, diferente do que a gente pensa hoje, juiz como árbitro de futebol ou alguém do tribunal,, o juiz no tempo bíblico era um libertador. Israel vivia em ciclos: se aproximava de Deus, tudo ia bem; se afastava, vinha opressão; e então Deus levantava um juiz para libertar o povo.
O versículo 1 do capítulo 6 diz que os filhos de Israel fizeram o que era mal perante o Senhor, e por isso foram entregues nas mãos dos midianitas por sete anos.
O pastor fez uma observação que ficou na minha cabeça: quando a gente sente que Deus está longe, não é porque Deus virou as costas e saiu caminhando. É o contrário, somos nós que viramos as costas e saímos caminhando. Deus não se move. Quem se move somos nós.
Deus não mata, mas capricha?
O Thiago tocou naqueles ditados populares que a gente repete sem pensar. "Deus não mata, mas capricha." "Deus escreve certo por linhas tortas." Ele foi enfático: Deus não trabalha assim. Deus não olha para a gente e diz "tu não foi na igreja, então eu vou furar o pneu do teu carro." Deus não se envolve com o mal. O que acontece é que nós colhemos aquilo que plantamos. As consequências são resultado das nossas escolhas, não de um Deus que fica aplicando castigos.
E aí veio uma pergunta que me marcou: quando a gente diz que está no fundo do poço, quem será que cavou esse poço? Porque muitas vezes a gente está lá embaixo e ainda coloca a culpa em Deus. Mas o verso 1 é claro, eles sabiam o que precisavam fazer e escolheram fazer o que era mal.
Conhecimento não salva ninguém
O pastor fez uma comparação forte: o povo de Israel conhecia a verdade. Usando a nossa linguagem adventista, "eles tinham a verdade." Mas de que adianta ter a verdade se ela não transforma a minha vida? Ele disse: "Crente até o diabo é. O diabo é crente, mas a verdade não mudou a vida dele. E se essa verdade que eu conheço não mudar a minha vida também, o meu fim é o mesmo fim dele."
Essa frase doeu, mas é verdade.
Gideão no buraco
A situação de Israel era desesperadora. Durante sete anos, cada vez que plantavam, os midianitas vinham e levavam tudo. Roubavam a colheita, o gado, as ovelhas. O povo ficou debilitado, fisicamente (estavam emagrecendo, passando fome), mentalmente (cansados de ver a família sofrendo) e espiritualmente (já duvidavam de Deus).
É nesse cenário que aparece Gideão. O verso 11 diz que ele estava malhando trigo no lagar. O pastor explicou o que era o lagar: um buraco cavado na pedra para pisar uva, não para malhar trigo. Era um espaço estreito, pequeno. Gideão estava ali dentro tentando malhar uns restos de trigo, porque os midianitas levavam quase tudo, e o que sobrava eram espigas pisoteadas que caíam pelo chão.
Ele até fez a gente imaginar a cena: já viu malhar feijão com manguá? Aquele sarrafo comprido que precisa de espaço para girar? Agora imagina fazer isso dentro de um buraco estreito de pisar uva. Era trabalho dobrado, era sofrimento extra. E o pastor perguntou: isso era plano de Deus para a vida de Gideão? Não. Não era plano de Deus. Era consequência das escolhas que o povo havia feito.
A gente se acostuma com o problema
Aqui o Thiago contou uma história pessoal que arrancou risada de todo mundo. Disse que um tempo atrás, um rapaz que era namorado de uma amiga da esposa dele, a Jeis, ia de bicicleta de Igrejinha até Parobé todo final de semana para visitá-la. Num desses trajetos, ele foi atropelado, quebrou a perna, a bicicleta virou num oito. Eles foram buscar o rapaz no hospital, deram carona, e no caminho para casa a dor começou a bater forte. Na hora de descer do carro, ele agarrou a maçaneta com tanta força que quebrou o trinco da porta.
O pastor ficou semanas procurando peça para arrumar. Enquanto isso, a esposa dele se acostumou: toda vez que ia descer do carro, baixava o vidro e abria a porta por fora. Com chuva, sem chuva, virou rotina.
Aí quando finalmente arrumou a maçaneta, adivinhem? A Jeis continuou baixando o vidro e abrindo por fora. Por umas três semanas, com o carro todo arrumadinho, ela ainda repetia o velho hábito. Ele ficava olhando, dando risada, e ela: "Ah, esqueci! É o costume!"
A lição é essa: a gente se acostuma com o problema. A gente começa a conviver com ele, e pior, começa a criar histórias na cabeça para justificar a situação. E nessas histórias, a gente nunca é o errado. A culpa é sempre do outro: do pai que abandonou, da mãe que criou rígida demais, do marido que não dá atenção, da esposa que reclama, do chefe, do amigo. A gente nunca é culpado.
As desculpas de Gideão
Quando o anjo do Senhor aparece e chama Gideão de "homem valente", o pastor destacou a ironia: que tipo de homem valente está escondido dentro de um buraco? E a resposta de Gideão começa com "Ai, Senhor...", e durante vários versículos ele repete esse "Ai." O pastor perguntou: alguém valente diz "ai"?
Gideão se diminuiu completamente: "A minha tribo é a menor. Dentro da menor tribo, a minha família é a mais pobre. E dentro da família mais pobre, eu sou o menor de todos." Era uma cascata de desculpas. O Thiago chamou isso de "jogo da desgraça", aquele costume que a gente tem de competir para ver quem tem a história mais triste. A pessoa vem mancando e diz que bateu o dedinho na cama, e a gente já emenda: "Isso não é nada! Eu bati o pé inteiro, saí mancando e deu um estralo no joelho!" A gente não escuta as pessoas; escuta um pouquinho e já joga uma história pior por cima.
Mas Deus não se impressiona com as nossas desculpas. O anjo do Senhor olhou para Gideão e disse: "Vai nessa tua força." Deus ia usá-lo do jeito que ele estava.
135 mil contra 300
A parte da batalha é de tirar o fôlego. O exército dos midianitas tinha 135 mil soldados treinados na arte da guerra. Gideão convocou todo Israel e conseguiu reunir 32 mil homens, já eram 100 mil a menos. Aí Deus olha e diz: "É demais os que estão contigo." O pastor imitou a pausa dramática: "Gideão... é demais."
Primeiro mandou embora quem tivesse com medo: 22 mil foram embora. Ficaram 10 mil. Gideão voltou chutando pedrinha, cabeça baixa. E Deus de novo: "Ainda é demais." Mandou os 10 mil beberem água no riacho, quem se abaixasse como cachorro, para um lado; quem pegasse água na mão e levasse à boca, para o outro. Resultado: 9.700 de um lado, 300 do outro. E Gideão ficou com os 300.
A conta é absurda: 135 mil contra 300. Cada israelita teria que enfrentar 450 soldados.
E as "armas"? Uma tocha, um vaso de barro e uma trombeta. O Thiago brincou: "Na minha estratégia, eu pego o vaso e jogo na cabeça de um, pego a tocha e dou uma paulada em dois ou três, e jogo a trombeta fora e saio correndo."
Mas o plano de Deus era outro. Dividiu os 300 em três grupos de 100, cercou o acampamento inimigo de madrugada, e na hora certa: gritaram, quebraram os vasos, acenderam as tochas e tocaram as trombetas. Os midianitas acordaram em pânico, acharam que estavam cercados por um exército gigante, e no desespero começaram a se matar entre si. 120 mil soldados caíram por "espada amiga", sem Israel precisar fazer nada.
Sobraram 15 mil. Aí sim, Deus chamou de volta os 32 mil originais para perseguir o restante, porque agora o número já era administrável. Todo milagre bíblico, como o pastor disse, é dividido em duas partes: Deus faz o impossível, e nós fazemos o possível. Ele nunca vai fazer aquilo que nós podemos fazer, mas faz aquilo que é impossível para nós.
De covarde a príncipe
E aqui veio o ponto central do sermão. Em Juízes 8:18, dois príncipes midianitas capturados, Zeba e Salmuna, os mesmos que haviam matado os irmãos de Gideão,, quando confrontados, olharam para Gideão e disseram: "Como tu és, assim eram eles. Cada um assemelhava-se a filho de rei."
O inimigo olhando para Gideão e dizendo: tu parece um príncipe. Tu te porta como príncipe, fala como príncipe, comanda como príncipe.
A pergunta do pastor foi: o que aconteceu com aquele covarde cheio de desculpas, escondido num buraco, que se achava o menor e mais pobre de todos, para que o próprio inimigo o reconhecesse como filho de rei?
A resposta está em Juízes 6:34: "Então o Espírito do Senhor revestiu Gideão."
Foi isso. O Espírito Santo revestiu Gideão. O mesmo Espírito que a gente estudou nos 10 dias de clamor, uma pessoa que se move, que trabalha, que age, que está conosco até a consumação do século. O objetivo dele é nos capacitar, nos dar poder, nos transformar em testemunhas.
O que fica
Todos nós fomos chamados para a batalha do bem contra o mal. Todos nós temos responsabilidade evangelística. Mas às vezes a gente se esconde em buracos dizendo que não é capaz, que não sabe, que não pode, que é pobre, que não tem estudo, que a memória é fraca, que nunca deu um estudo bíblico. Desculpa em cima de desculpa.
O que transformou Gideão de covarde a príncipe não foi treinamento militar, não foi estratégia humana, não foi o tamanho do exército. Foi ser revestido do poder do Espírito Santo.
O pastor terminou com uma oração pedindo esse mesmo revestimento para cada um de nós. Que a gente tenha coragem, audácia e lealdade para sair e trabalhar pelo ministério de Deus, levando luz a esse mundo de trevas.
Que a gente busque esse poder todos os dias. Amém.